quinta-feira, 6 de maio de 2021

EU TENHO UM SONHO - MARTIN LUTHER KING


 “Estou contente de me reunir hoje com vocês nesta que será conhecida como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação. 

Há dez décadas, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a Proclamação da Emancipação. Esse magnífico decreto surgiu como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que arderam nas chamas da árida injustiça. Ele surgiu como uma aurora de júbilo para pôr fim à longa noite de cativeiro. 

Mas cem anos depois, o negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do negro ainda está tristemente debilitada pelas algemas da segregação e pelos grilhões da discriminação. 

Cem anos depois, o negro vive isolado numa ilha de pobreza em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o negro ainda vive abandonado nos recantos da sociedade na América, exilado em sua própria terra. Assim, hoje viemos aqui para representar a nossa vergonhosa condição. 

De uma certa forma, vimos à capital da nação para descontar um cheque. Quando os arquitetos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração da Independência (sim), eles estavam assinando uma nota promissória da qual todos os americanos seriam herdeiros. A nota era uma promessa de que todos os homens, sim, negros e brancos igualmente, teriam garantidos os ‘direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade’. 

É óbvio neste momento que, no que diz respeito a seus cidadãos de cor, a América não pagou essa promessa. Em vez de honrar a sagrada obrigação, a América entregou à população negra um cheque ruim, um cheque que voltou com o carimbo de ‘sem fundos’. 

No entanto, recusamos a acreditar que o banco da justiça esteja falido. Recusamos a acreditar que não haja fundos suficientes nos grandes cofres de oportunidade desta nação. E, assim, viemos descontar esse cheque, um cheque que nos garantirá, sob demanda, as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. 

Viemos também a este glorioso local para lembrar a América da urgência feroz do momento. Não é hora de se comprometer com o luxo do comedimento ou de tomar o tranquilizante do gradualismo. Agora é hora de concretizar as promessas da democracia (sim, Senhor). 

Agora é hora de deixar o vale sombrio e desolado da segregação pelo caminho ensolarado da justiça racial. Agora é hora de conduzir a nossa nação da areia movediça da injustiça racial para a sólida rocha da fraternidade. Agora é hora de tornar a justiça uma realidade para todos os filhos de Deus. 

Seria fatal para a nação ignorar a urgência do momento. Este verão sufocante do legítimo descontentamento dos negros não passará até que haja um outono revigorante de liberdade e igualdade. O ano de 1963 não é um fim, mas um começo. E aqueles que agora esperam que o negro se acomode e se contente terão uma grande surpresa se a nação voltar a negociar como de costume. 

E não haverá descanso nem tranquilidade na América até que se conceda ao negro a sua cidadania. As tempestades da revolta continuarão a balançar os alicerces da nossa nação, até que floresça a luminosa manhã da justiça. 

Mas há algo que devo dizer a meu povo, diante da entrada reconfortante do Palácio da Justiça: ao longo do processo de conquista do nosso merecido lugar, não podemos nos condenar com atos criminosos. Não devemos saciar a nossa sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. Devemos sempre conduzir a nossa luta no mais alto nível de dignidade e disciplina. 

Não podemos permitir que o nosso protesto degenere em violência física. Vezes sem fim, devemos nos elevar às majestosas alturas para confrontar a força física com a força da alma. 

A nova e maravilhosa militância que engolfou a comunidade negra não deve nos levar a desconfiar de todos os homens brancos, pois muitos de nossos irmãos brancos, como se torna evidente com a sua presença aqui hoje, compreenderam que o seu destino está ligado ao nosso. 

Eles compreenderam que a sua liberdade está atada à nossa, de forma inextricável. Não podemos caminhar sozinhos. E, enquanto caminhamos, devemos prometer que sempre marcharemos adiante. Não podemos voltar. 

Há quem pergunte aos devotos dos direitos civis: ‘Quando ficarão satisfeitos?’ (Nunca). Não ficaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos inenarráveis horrores da brutalidade policial. Não ficaremos satisfeitos enquanto os nossos corpos, pesados pela fadiga da viagem, não obtiverem hospitalidade nos hotéis das rodovias e das cidades. 

Não ficaremos satisfeitos enquanto a única mobilidade social a que um negro possa aspirar seja deixar o seu gueto por um outro maior. Não ficaremos satisfeitos enquanto os nossos filhos forem despidos de sua personalidade e tiverem a sua dignidade roubada por cartazes com os dizeres ‘só para brancos’. 

Não ficaremos satisfeitos enquanto o negro do Mississippi não puder votar e o negro de Nova York acreditar que não há por que votar. Não e não. Não estamos satisfeitos e nem ficaremos satisfeitos até que ‘a justiça jorre como uma fonte; e a equidade, como uma poderosa correnteza’. 

Não ignoro que alguns de vocês enfrentaram inúmeros desafios e adversidades para chegar até aqui (sim, Senhor). Alguns de vocês recentemente abandonaram estreitas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de regiões onde a busca por liberdade deixou-os abatidos pelas tempestades da perseguição e abalados pelos ventos da brutalidade policial. 

Vocês são os veteranos do sofrimento profícuo. Continuem a lutar com a fé de que o sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Louisiana, voltem para os cortiços e para os guetos das cidades do Norte, conscientes de que, de algum modo, essa situação pode e será transformada (sim). Não afundemos no vale do desespero. 

E digo-lhes hoje, meus amigos, mesmo diante das dificuldades de hoje e de amanhã, ainda tenho um sonho, um sonho profundamente enraizado no sonho americano. 

Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se erguerá e experimentará o verdadeiro significado de sua crença: ‘Acreditamos que essas verdades são evidentes, que todos os homens são criados iguais’ (sim). 

Eu tenho um sonho de que um dia, nas encostas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos sentarão ao lado dos filhos dos antigos senhores, à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho de que um dia até mesmo o estado do Mississippi, um estado sufocado pelo calor da injustiça, sufocado pelo calor da opressão, será um oásis de liberdade e justiça. 

Eu tenho um sonho de que os meus quatro filhos pequenos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter (Sim, Senhor). Hoje, eu tenho um sonho! 

Eu tenho um sonho de que um dia, lá no Alabama, com o seu racismo vicioso, com o seu governador de cujos lábios gotejam as palavras ‘intervenção’ e ‘anulação’, um dia, bem no meio do Alabama, meninas e meninos negros darão as mãos a meninas e meninos brancos, como irmãs e irmãos. Hoje, eu tenho um sonho. 

Eu tenho um sonho de que um dia todo vale será alteado (sim) e toda colina, abaixada; que o áspero será plano e o torto, direito; ‘que se revelará a glória do Senhor e, juntas, todas as criaturas a apreciarão’ (sim). Esta é a nossa esperança, e esta a fé que levarei comigo ao voltar para o Sul (sim). Com esta fé, poderemos extrair da montanha do desespero uma rocha de esperança (sim). Com esta fé, poderemos transformar os clamores dissonantes da nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. 

Com esta fé (sim, Senhor), poderemos partilhar o trabalho, partilhar a oração, partilhar a luta, partilhar a prisão e partilhar o nosso anseio por liberdade, conscientes de que um dia seremos livres. E esse será o dia, e esse será o dia em que todos os filhos de Deus poderão cantar com um renovado sentido: 

O meu país eu canto. Doce terra da liberdade, a ti eu canto. 

Terra em que meus pais morreram, / Terra do orgulho peregrino, / Nas encostas de todas as montanhas, que a liberdade ressoe! 

E se a América estiver destinada a ser uma grande nação, isso se tornará realidade. 

E, assim, que a liberdade ressoe (sim) nos picos prodigiosos de New Hampshire. 

Que a liberdade ressoe nas grandiosas montanhas de Nova York. 

Que a liberdade ressoe nos elevados Apalaches da Pensilvânia. 

Que a liberdade ressoe nas Rochosas nevadas do Colorado. 

Que a liberdade ressoe nos declives sinuosos da Califórnia (sim). 

Mas não apenas isso: que a liberdade ressoe na Montanha de Pedra da Geórgia (sim). 

Que a liberdade ressoe na Montanha Lookout do Tennessee (sim). 

Que a liberdade ressoe em toda colina do Mississippi (sim). Nas encostas de todas as montanhas, que a liberdade ressoe! 

E quando acontecer, quando ressoar a liberdade, quando a liberdade ressoar em cada vila e em cada lugarejo, em cada estado e cada cidade, anteciparemos o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, juntarão as mãos e cantarão as palavras da velha canção dos negros: 

Livres afinal! Livres afinal! 

Graças ao Deus Todo-Poderoso, / Estamos livres afinal!” 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Guia para entender a caótica política libanesa AUGUST 10, 2020

 

Por Guga Chacra

Hassan Diab entrega carta de renúncia ao presidente libanês, Michael Aoun

Após a megaexplosão no porto de Beirute na semana passada, Hassan Diab, premier do Líbano, renunciou ao cargo. Estava no poder havia poucos meses e tinha perfil de tecnocrata. Na prática, não mandava praticamente nada. Não passava de um fantoche da coalizão entre os cristãos da Frente Patriótica Nacional, do presidente Michel Aoun, e os xiitas do Hezbollah e da Amal. Sua força nas ruas sunitas, que ele supostamente representaria na divisão de cargos sectários, era quase nula.

Antes de seguir, é preciso entender o sistema político libanês. O Parlamento do Líbano tem 128 deputados. Metade é cristã de diferentes denominações e metade muçulmana (sunitas e xiitas), além de drusos e alauitas. Abaixo, coloco a distribuição exata.

CRISTÃOS (64)

34 maronitas

14 greco-ortodoxos

8 melquitas (greco-católicos)

5 armênios ortodoxos

1 armênio católico

1 protestante

1 outras minorias cristãs (siríaco, copta) ou judeu

MUÇULMANOS (64)

27 sunitas

27 xiitas

8 drusos

2 alauitas

O gabinete ministerial libanês também é dividido nestas linhas.

Diante desta divisão, os partidos costumam se construir ao redor de correntes sectárias. A votação, no entanto, se dá por listas distritais. Por exemplo, o distrito de Zahle tem direito a 7 cadeiras. Destas, duas precisam ser para melquitas (greco-católicos), 1 para cristão maronita, 1 para cristão greco-ortodoxo, 1 para armênio ortodoxo, 1 para xiita e 1 para sunita. Nas listas das coalizões, portanto, você precisará ter um representante de cada um deste grupo. Os eleitores votam na lista. Logo, a tendência é partidos de diferentes correntes sectárias fazerem coalizões com membros de outras. Por este motivo, o Hezbollah, um partido xiita, se aliou à Frente Patriótica Nacional (FPN), de Michel Aoun. Desta forma, o partido xiita pega votos de cristãos que apoiam Aoun enquanto a FPN pega votos de xiitas pró-Hezbollah. Este fenômeno se replica em outras alianças.

Há dois blocos principais. Um deles é justamente este dos cristãos populistas de Michel Aoun com o Hezbollah, que tem maioria parlamentar. Inclui ainda alguns grupos sunitas, os xiitas da Amal e outros partidos cristãos. Outro bloco é composto pelos sunitas do partido Futuro do ex-premier Saad Hariri e agremiações cristãs nacionalistas, como as Forças Libanesas e a Kataeb.

Até o ano passado, antes das manifestações de outubro, havia um governo de união nacional. Os protestos levaram à queda de Hariri e dos ministros políticos. O novo Ministério de fato passou a ser composto por tecnocratas. Mas estes eram escolhidos pela coalizão dos cristãos de Aoun com os xiitas do Hezbollah e da Amal. Basicamente, os sunitas saíram enfraquecidos sem a presença de Hariri.

Com a renúncia de Diab, não será simples a formação de um novo governo dentro do Líbano com o atual Parlamento. Os xiitas do Hezbollah e os cristãos de Aoun não perderam sua força por ainda manterem a maioria. Talvez, diante dos protestos, aceitassem um recuo estratégico. Poderiam concordar com o retorno do adversário Saad Hariri ao cargo de premier. Seria uma forma de acalmar ao menos o establishment sunita. Existe o risco, porém, de Aoun e o Hezbollah empurrarem com a barriga e deixarem Diab de interino ou escolherem um outro fantoche.

Em todas estas circunstâncias, para ficar claro, seguirá a insatisfação popular. Mas a realização de eleições poderia acalmar temporariamente os ânimos. Estas também enfrentarão uma série de dificuldades para serem organizadas. Caso os eleitores sejam convocados para votar no atual sistema sectário, talvez vejamos um fortalecimento, dentro das cadeiras cristãs, de partidos cristãos rivais de Aoun, como as Forças Libanesas, de Samir Geagea, e o Kataeb, da família Gemayel. Estes poderiam fazer a balança pender um pouco para o lado anti-Hezbollah, fortalecendo também Hariri.

Ainda assim, será insuficiente para enfraquecer o Hezbollah porque o partido e seus aliados da Amal manteriam as cadeiras de xiitas e o controle da Presidência do Parlamento. Talvez, com uma forte mobilização do eleitorado xiita, possam ajudar o partido cristão FPM de Aoun a manter suas cadeiras, compensando a perda de votos cristãos para as Forças Libanesas de Geagea e o Kataeb da família Gemayel. Para completar, mesmo em caso de derrota nas urnas de sua coalizão, o Hezbollah seguiria com a sua milícia armada, mais poderosa do que o Exército libanês e considerada terrorista pelos EUA e alguns países europeus.

Não podemos esquecer que as manifestações do ano passado eram contra toda a classe política. Isso inclui os adversários cristãos Aoun e Geagea, o sunita Hariri, o Hezbollah e a Amal, além dos líderes drusos Arslan e Jumblatt. Os eleitores querem renovação de nomes. Dentro do sistema político libanês, no entanto, teriam dificuldade de eleger novas lideranças fora de Beirute. Portanto, o balanço de poder pode mudar, mas dificilmente fora da atual classe política.

terça-feira, 3 de março de 2020

A REVOLUÇÃO INGLESA

SOBRE A REVOLUÇÃO INGLESA, COMENTE AQUI O TEMA: 

"O PAPEL DA RELIGIÃO NA REVOLUÇÃO INGLESA".

(Escrever uma frase de sua autoria que explique como a religião interferiu nas mudanças políticas na Inglaterra)

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

7 ANO - GALILEU GALILEI

GALILEU GALILEI
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(15/02/1564 - 08/01/1642)

Destaca-se em: Astronomia, Física, Matemática

Origem: Itália

Cientista italiano e estudioso, Galileu Galilei fez observações pioneiras que foram base para a Física e a Astronomia modernas.
Nascido em 15 de fevereiro de 1564, em Pisa, na Itália, Galileu Galilei foi um professor de Matemática que fez observações pioneiras sobre a natureza com implicações permanentes para o estudo da Física. Ele também construiu um telescópio e apoiou a teoria de Copérnico, que fala de um sistema solar com o Sol como centro. Galileu foi acusado de heresia pela Igreja por suas crenças, e escreveu livros sobre suas ideias. Ele morreu em Arcetri, Itália, em 8 de janeiro de 1642.

Fascinado por matemática e física

A Matemática é o alfabeto que Deus usou para escrever o Universo
Galileu Galilei foi o primeiro dos seis filhos de Vincenzo Galilei, um músico e teórico de música muito conhecido, e de Giulia Ammannati. Em 1574, a família mudou para Florença, onde Galileu iniciou sua educação formal, no monastério Camaldolese.
Em 1583, Galileu ingressou na Universidade de Pisa para estudar Medicina, tornando-se fascinado pela Matemática e pela Física. Em Pisa, ele foi exposto à visão aristotélica do mundo, apoiada por ele, e estava no caminho para ser um professor universitário. Porém, por questões financeiras, precisou largar a universidade antes de se formar.

Carreira acadêmica

Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos.
Galileu continuou a estudar Matemática e se sustentava dando aulas. Nessa época, ele publicou “The Little Balance” (A Pequena Balança), iniciando seus estudos de objetos em movimento, o que o trouxe alguma fama e um posto de professor na Universidade de Pisa, em 1589. Lá, Galileu conduziu suas experiências com objetos em queda e produziu seu manuscrito “Du Motu” (Em Movimento). Galileu ficou arrogante com seu trabalho e suas críticas a Aristóteles o deixaram isolado de seus colegas. Em 1592, seu contrato com a universidade não foi renovado. Mas Galileu rapidamente achou uma nova posição na Universidade de Pádua, ensinando Geometria, Mecânica e Astronomia.

Descobertas controversas

Conhecer a si próprio é o maior saber.
Em 1604, Galileu publicou “The Operations of the Geometrical and Military Compass” (As Operações do Compasso Geométrico e Militar”). Ele também construiu uma balança hidrostática para medir objetos pequenos. No mesmo ano, Galileu refinou suas teorias sobre objetos em queda e em movimento, e desenvolveu a lei universal da aceleração, além de começar a apoiar unicamente a teoria de Copérnico, de que o Sol é o centro do Universo e os planetas orbitam ao redor dele.
Em julho de 1609, Galileu desenvolveu seu próprio telescópio. Em agosto, ele começou a comercializá-lo. Sua ambição o levou além e ele começou a observar o céu, descobrindo que a Lua não era plana e macia, mas uma esfera com montanhas e crateras. Ele também demonstrou que Vênus tinha fases, como as da Lua, provando que o planeta orbitava ao redor do Sol. Ele descobriu ainda que Júpiter tinha luas que não orbitavam ao redor da Terra.

Briga com a Igreja

Falar obscuramente, qualquer um sabe; com clareza, raríssimos.
Em 1612, ele publicou seu “Discourse on Bodies in Water” (Discurso sobre Corpos na Água), refutando a explanação de Aristóteles sobre o motivo dos corpos flutuarem na água, dizendo que era por conta do seu formato plano. Galileu defendeu que o peso do objeto em relação à água era deslocado. Em 1613, ele publicou algumas observações sobre as manchas solares, que refutou a doutrina de Aristóteles de que o Sol é perfeito.
No mesmo ano, escreveu uma carta a um estudante explicando como a teoria de Copérnico não contradizia passagens bíblicas, pontuando que as escrituras foram escritas de uma perspectiva terrestre e implicando que a ciência tinha uma perspectiva diferente, mais precisa. A carta foi tornada pública e a Igreja pronunciou que a teoria de Copérnico era herege. Assim, Galileu foi proibido de defender a teoria sobre o movimento da Terra.

Processo de Inquisição

Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.
Em 1623, um amigo de Galileu se tornou o Papa Urbano VIII. Ele permitiu que Galileu continuasse seu trabalho em astronomia e o incentivou a publicá-lo, na condição de ser objetivo e não defender a teoria de Copérnico. Em 1632, ele publicou “Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”, uma discussão entre três pessoas: uma que apoia a teoria heliocêntrica de Copérnico , outra que argumenta contra e outra imparcial.
A reação da Igreja contra o livro foi rápida, e Galileu foi chamado a Roma. O processo de Inquisição durou de setembro de 1632 a julho de 1633. Galileu foi torturado e finalmente admitiu que apoiava a teoria de Copérnico. Ele foi condenado por heresia e permaneceu seus últimos anos sob prisão domiciliar, proibido de receber visitas ou imprimir seus trabalhos fora da Itália, duas sentenças que foram ignoradas por ele. Em 1634, uma tradução francesa de seu estudo das forças e seus efeitos na matéria foi publicado, e, um ano depois, cópias do “Diálogo” foram impressas na Holanda. Enquanto esteve em prisão domiciliar, Galileu escreveu “Discursos sobre as Novas Ciências”, um resumo de seu trabalho sobre a ciência do movimento e forças das matérias, que foi publicado na Holanda em 1638. Nessa época, ele já estava cego e com a saúde precária.

Morte e legado

Galileu morreu em Arcetri, perto da Florença, em 8 de janeiro de 1642, sofrendo de febre e palpitações. Nessa época, a Igreja não podia negar a crença na ciência e, em 1758, não mais proibiu as obras que apoiavam a teoria de Copérnico e, em 1835, deixou a oposição ao heliocentrismo.
No século 20 muitos papas reconheceram a obra de Galileu, e em 1992, o Papa João Paulo II expressou arrependimento sobre o caso. As contribuições de Galileu foram muito significantes para a nossa compreensão do Universo. Ele teve um papel muito importante na revolução científica e recebeu o título de “O Pai da Ciência Moderna”.

Vida pessoal

Em 1600, Galileu conheceu Marina Gamba, uma mulher de Veneza que lhe deu três filhos, os quais não foram reconhecidos por ele. Eles nunca se casaram, possivelmente, por conta de questões financeiras e pelo medo de que a ilegitimidade dos filhos ameaçasse sua posição social. Galileu enviou as duas filhas para o convento e seu filho Vicenzo se tornou um músico de sucesso.

Fonte: https://seuhistory.com/biografias/galileu-galilei



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Código Civil Napoleônico

Hoje na História: Entra em vigor o Código Civil Napoleônico


Em 21 de março de 1804 entra em vigor o Código Civil francês, que seria consagrado como o Código Napoleônico.

Napoleão Bonaparte, conquistador insaciável, não deixou somente um passado de vitórias e derrotas. Ficou marcado na história como um dos chefes de Estado que construiu as instituições mais duráveis de seu tempo, como o Código Civil. O código consolida os vários textos, os reordena e emenda para formar um arsenal jurídico único a ser aplicado em todo o território e por todos os franceses, independente de sua condição econômica, social ou cultural, com uma gritante exceção: aboliu os direitos que as mulheres haviam adquirido na Idade Média.

Inspirando-se no direito revolucionário e no direito romano,  o código consagra os grandes princípios da Revolução: liberdade da pessoa; liberdade e segurança da propriedade; abolição do feudalismo, laicismo etc. No entanto, as mulheres não se beneficiariam dos mesmos direitos que os homens. Elas foram consideradas “civilmente incapazes”.

Mudanças 

Em 1800, o jovem general Napoleão Bonaparte, primeiro cônsul e chefe incontestável da França, deu início a uma árdua tarefa de rever o antiquado e confuso sistema legal francês. Nomeou uma comissão especial presidida por J.J. Cambaceres, o segundo cônsul e seu homem de confiança, com a função de supervisionar a comissão encarregada do Código, indicando o jurista Tronchet para coordená-la. Ao lado dele atuou Bigot de Préameneu e Portalis. A comissão se reuniu mais de 80 vezes para discutir e redigir um texto revolucionário. Napoleão esteve presente em quase metade dessas sessões.

Ele codificou diversos ramos do direito, inclusive o comercial e o penal. E dividiu o direito civil em duas categorias: o da propriedade e o da família. O Código Napoleônico tornou a autoridade do homem sobre suas famílias mais forte e privou a mulher de direitos individuais, reduzindo, igualmente, os direitos de filhos ilegítimos. A todos os cidadãos masculinos foi garantida a igualdade perante a lei. Ficou assegurado também o direito à dissensão religiosa, porém a escravidão colonial foi reintroduzida. As leis passaram a ser aplicadas em todos os territórios sob o controle de Napoleão e influenciaram diversos países da Europa e da América do Sul.

Pelo Código de Napoleão, o cidadão se inteirava que não havia mais ninguém que pudesse requerer privilégios devido ao sangue ou ao nascimento nobre. O Estado se separava da Igreja e doravante cada um podia escolher o caminho para o céu que melhor lhe aprouvesse, como abraçar a profissão que bem quisesse.

Para minar a transmissão das terras pelo princípio da primogenitura, os filhos agora tinham direitos iguais à herança paterna e o casamento somente adquiria legitimidade em frente a um juiz de paz. Napoleão, seguindo a doutrina liberal, pôs fim ao conceito religioso do enlace sagrado substituindo-o pelo contrato de casamento.

A figura importante do matrimônio deixou de ser o pároco e o altar para vir a ser o notário e o cartório. O casamento se tornou "un affair d'argent" (um negócio de dinheiro). Por conseguinte, reduzido o casamento a um ato secular regulamentado pelo Estado, o divórcio foi legalizado. A lei do Estado substituía, por assim dizer, a lei de Deus.

Nas questões familiares, Napoleão se deixou levar pelo lado italiano. Como na Roma Antiga, o pai era tudo - o pai patrão. Além de tutelar a mulher e a filha, até encarcerar um filho por seis meses era permitido. E se este manifestasse o desejo de se casar, tinha que ter a licença paterna.

Feudalismo substituído

Dois terços do código foram reservados à razão de ser do burguês na terra; a propriedade. O Código a libertou das teias feudais e a protegeu do estado, dizendo-a anterior a este. O cidadão era o indivíduo e seus bens. A sociedade das obrigações feudais, do vassalo para com o suserano, do servo para com o senhor, foi definitivamente substituída pela moderna sociedade do contrato, estabelecido entre indivíduos livres, dotados de autonomia.

A velha ordem estamental baseada na herança e nos direitos de sangue foi definitivamente suplantada pela sociedade de classes. A exacerbação do individualismo existente no código se deve à necessidade de afirmar sua total independência frente aos poderes que o prendiam ao passado, quando se submetia à vontade do nobre, do padre, e da corporação ou guilda profissional a que pertencia.

O código foi a concretização de uma dupla expectativa do Iluminismo: fazer com que as leis fossem submetidas a uma ordenação determinada pela razão - desejo de Montesquieu - e obra de um déspota ilustrado - como esperava Voltaire.

*Com informações do site educaterra.terra

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/3317/conteudo+opera.shtml

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Os reais mistérios de Leonardo da Vinci

Os reais mistérios de Leonardo da Vinci

Para além das conspirações, um gênio realmente incomum


Talvez nenhuma pessoa jamais tenha representado tão bem um período da história quanto Leonardo da Vinci. Chamado de “o homem da Renascença” (época caracterizada pela valorização do homem e da natureza), ele, ao longo de seus 67 anos de vida, envolveu-se até o pescoço nos experimentos científicos e artísticos que marcaram o fim da Idade Média na Europa. Da Vinci foi brilhante em praticamente todas as atividades em que se meteu: foi pintor, engenheiro, inventor, músico (compunha e tocava lira), arquiteto, escultor, astrônomo e escritor. E fez tudo isso de uma forma inovadora, revolucionária – genial mesmo.
Por isso, e por outro tanto de coisas que você vai ler nesta matéria, sempre foi motivo de polêmica. Durante sua vida, em suas centenas de biografias, e mesmo hoje, quase 500 anos depois de sua morte, o que se escreve sobre ele ainda faz aumentar a aura de mistério que cerca sua vida e sua obra. “Já foi dito que ele é o verdadeiro autor do Sudário de Milão, que se auto-retratou na Mona Lisa, que era maníaco-depressivo e que praticava experiências de alquimia”, diz a americana Sarah B. Benson, do departamento de Arte da Universidade de Princeton, em Nova York. Daí a dizer que ele foi líder de uma sociedade secreta e que escondeu em suas obras mensagens cifradas que provam que Jesus escapou da crucificação e fugiu com Maria Madalena para a França, vai uma grande diferença. Mas, afinal, o que há na vida e na obra de Da Vinci que levanta tanta polêmica? O que se sabe realmente sobre ele? Por que tanta gente acredita que ele foi um misterioso guardião de segredos indecifráveis?
Infância Humilde
Filho ilegítimo de Caterina, uma camponesa de 16 anos, e de Ser Piero di Antonio, um tabelião 30 anos mais velho, Leonardo nasceu no dia 15 de abril de 1452, num povoado perto de Vinci, a cerca de 50 quilômetros de Florença, na Itália. Teve 17 meios-irmãos: 12 por parte de pai e cinco por parte de mãe. Na época, a Itália nem era um país, mas um amontoado de cidades-reinos, como Milão, Verona, Nápoles, Gênova, Veneza, além da própria Florença, que rivalizavam entre si e se organizavam em volta do poder religioso e político de Roma e do papa.
A instabilidade política da região não afetou, no entanto, a infância do pequeno Leo, que cresceu sob os cuidados do pai e da madrasta, que lhe proporcionaram educação básica: aprendeu a ler, escrever e amarrar os sapatos. E, tirando o talento precoce para as artes, nada em sua juventude fazia prever destino tão especial. Foi na adolescência que o gênio de Leonardo começou a surgir. Segundo seu primeiro biógrafo, o italiano Giorgio Vasari, que escreveu Vite dei Più Eccellenti Architetti, Pinttori et Escultori Italiani (“Vida dos melhores arquitetos, pintores e escultores italianos”) apenas 30 anos após a morte de Da Vinci, consta que ele aprendeu sozinho latim, matemática, anatomia humana e física. Passava horas tentando melhorar um desenho. Quando morava com o pai, em Vinci, Leonardo foi encarregado de ilustrar o escudo de um fazendeiro local. Escolheu fazer uma coisa inspirada na mitológica Medusa, aquela que tinha cobras no lugar dos cabelos. Para realizar o trabalho da maneira mais realista, reuniu serpentes, lagartos e outros pequenos animais para servirem como modelo. Um dia seu pai entrou no ateliê e encontrou o filho trabalhando em meio a animais em decomposição. Estava tão absorto que nem sentia o mau cheiro dos bichos mortos. Quando tinha lá seus 20 anos, foi aceito como aprendiz no ateliê do artista Andrea Verrochio, em Florença. Lá conseguiu seus primeiros trabalhos e, com o tempo, obteve notoriedade – de bom pintor e de nunca entregar suas obras no prazo. Ficaram famosas suas pinturas inacabadas. Algumas chegaram aos nossos dias, como o retrato de São Jerônimo, em exposição no Museu do Vaticano. Trabalhou para a Igreja, fez amigos entre os poderosos e conseguiu alguma fortuna. Foi patrocinado por Lorenzo de Médici, o todo-poderoso de Florença, e em 1502 acabou nomeado arquiteto e engenheiro geral para as regiões de Marche e Romagna por César Bórgia, o capitão-geral do exército (e filho) do papa Alexandre VI. Outro fã de suas obras foi Ludovico Sforza, duque de Milão.
Leonardo nunca se casou e na juventude, em 1476, chegou a ser réu no processo de sodomia de Jacopo Saltarelli, um colega aprendiz como ele, mas a acusação foi arquivada. Hoje, o movimento gay busca clamar seu nome como uma das mais brilhantes figuras históricas homossexuais, mas os historiadores ainda discutem se ele era mesmo gay.
Viajou pela Europa e cultivou inimigos tão poderosos e brilhantes como ele. Michelângelo, um de seus maiores rivais, costumava se referir a Leonardo como “aquele tocador de lira de Milão”. Emigrou para a França, onde foi amigo do rei. Dos reis, na verdade. Tornou-se o preferido da corte de Luís XII e, mais tarde, amigo pessoal e confidente de seu sucessor, Francisco I. Dele ganhou uma casinha (o castelo de Cloux), onde viveu seus últimos dias. Morreu em 1519, dizem, dormindo. Segundo seu desejo, seu caixão foi acompanhado por 60 mendigos. Leonardo deixou um legado enorme entre quadros, desenhos e manuscritos. Apenas pouco mais de 20 de suas pinturas sobrevivem até hoje, entre elas algumas das mais famosas pinturas de todos os tempos, como a Mona Lisa e A Última Ceia. Fora os protótipos de invenções que só seriam concretizadas séculos depois, como o pára-quedas, o escafandro e o tanque de guerra.
Lado oculto
Da Vinci viveu na mesma época que Cristóvão Colombo, Maquiavel, Michelângelo, Martinho Lutero e Nostradamus. Enquanto ele pintava Mona Lisa, Pedro Álvares Cabral navegava pelo Atlântico em direção ao Brasil. Mas o que em sua vida ou suas telas deu margem a teorias conspiratórias? Leonardo era tão diferente e misterioso assim? Sua obra ou sua vida permitiram que tantos anos depois tanta coisa fosse inventada sobre ele?
A resposta é sim. Da Vinci dava sopa para o azar. E, apesar de ele ser, de certa forma, típico de seu tempo, tinha lá suas manias. Primeiro, criou sua própria linguagem em código. Quando não escrevia ao contrário, da direita para a esquerda – fazendo que sua caligrafia só fosse compreendida quando vista no espelho –, usava um tipo de taquigrafia estranhíssima, na qual usava parte de palavras ou símbolos e não letras para exprimir idéias. Prato cheio para quem enxerga conspirações em todo lugar.
”Seus interesses ultrapassavam o campo artístico”, afirma Christopher Witcombe, professor do departamento de História da Arte da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos. Ele especulou pela anatomia, biologia, física e engenharia. Leonardo amava sua arte e acreditava que “o amor a qualquer coisa é produto do conhecimento, sendo o amor mais ardente quanto mais seguro é o conhecimento”, conforme escreveu. Era um profundo estudioso das técnicas que, segundo sua visão, seriam complementares à sua arte. Ele dissecou corpos humanos e de animais para compreender a posição de ossos e como funcionavam músculos e tecidos. Desenvolveu e utilizou lentes para projetar imagens e melhor reproduzir seus modelos, desenvolvendo técnicas aplicáveis às suas obras, como os planos de perspectiva, ponto de fuga etc. Estudou a química das substâncias para desenvolver suas próprias tintas, especulou sobre a matemática e a filosofia. Da Vinci foi um cientista-artista tão fascinado pelos mistérios do Universo e pelos enigmas do corpo humano quanto pelas possibilidades de aplicar esses conhecimentos em suas obras.
Mas, tirando a letra invertida, o resto não era coisa assim tão rara na Europa do fim do século 15, época em que as fronteiras entre ciência, misticismo e arte não eram tão definidas. Leonardo cruzou esses limites mais vezes e com muito mais facilidade que os sacoleiros de Ciudad del Este. “As linhas mestras do pensamento renascentista, das quais Leonardo era não só um seguidor, mas um entusiasta, misturavam o humanismo grego a experiências alquimistas e conhecimentos herméticos. E isso aliado a experimentações protocientíficas, como dissecação de cadáveres e observação de astros, que estão na raiz do nascimento das modernas medicina e astrofísica”, diz Witcombe. Ciência e misticismo andavam de mãos dadas no fim do século 15, começo do 16. E ambas eram recebidas com um olhar torto pela Igreja.
A única fronteira que não se devia atravessar naquela época era a religiosa. Com o sagrado era difícil brincar, ainda mais no caso de um artista, numa época em que a Igreja (assim mesmo, com letra maiúscula, para indicar a instituição com sede em Roma e representada em toda a Europa por bispos e padres católicos) era a principal cliente de pinturas e esculturas. Segundo a professora Sarah B. Benson, os artistas renascentistas escondiam suas crenças e convicções pessoais em pinturas encomendadas pela igreja. Além disso, Da Vinci de fato recheava suas pinturas de símbolos e mensagens cifradas. “Ele realmente espalhou uma série de símbolos não-cristãos em seus quadros – que vão dos que aparecem agora no cinema e foram citados por Dan Brown(– até pintar a si mesmo como João Batista e o anjo Gabriel em algumas obras”, afirma Sarah. Em A Virgem das Rochas, ele introduziu plantas utilizadas em rituais mágicos.
O mito
Até agora temos um típico sujeito da Renascença. Um gênio, metido com alquimia e medicina primitiva. Um pintor que desenvolveu técnicas revolucionárias. Mas esse não é o assunto desta matéria. Nosso desafio é explicar por que essa obra genial se presta até hoje a interpretações pouco convencionais, com claras tendências fantasiosas. Para o historiador norte-americano George Gorse, da Universidade de Pomona, nos Estados Unidos, a resposta pode estar na própria arte e no talento de Da Vinci. “Sua obra é universal, pois fala com cada pessoa de maneira particular. E é isso que o torna mais interessante e faz com que, após tantos anos, ele continue sendo uma figura indecifrável, tão sedutora quanto a imensidão e a beleza de sua obra. Sempre haverá o que ser descoberto sobre um artista tão genial”, diz George.
Isso equivaleria a dizer, em termos populares, que a universalidade da obra de Leonardo (isso que faz cada pessoa ver um – ou algum – sentido nas pinturas dele) fez com que ela atravessasse o tempo, tornando-se algo cujo significado fosse adaptado aos diferentes períodos da história e continuasse fascinando a imaginação de tanta gente. A obra de Leonardo atravessou os séculos, adaptando-se aos gostos e linguagens de cada época. Como ícones de um passado comum, suas obras foram assumindo um caráter que tem muito mais a ver com o espírito do tempo presente do que com o tempo ou a realidade que o autor procurou exprimir. Ou seja, fala muito mais sobre o tempo de quem a vê (seja hoje, seja no século 19) do que sobre o tempo de quem a pintou ou de quem está retratado nela.
Por exemplo, na década de 1960, sua obra mais famosa, a Mona Lisa, se tornou símbolo da cultura pop. Quando resolveu promover o Dadaísmo, movimento artístico que pregava o absurdo e o desprezo pela arte tradicional, Marcel Duchamp (1889-1968) pintou bigodes numa réplica Mona Lisa. Ele não poderia ter escolhido obra mais representativa para mandar seu recado. Tornou-se símbolo de uma arte descartável, presa em molduras de madeira, vazia de significado. Um rosto de mulher, como uma foto de Marilyn Monroe, que pode ser copiada, e copiada, e copiada.
Hoje, o que nos leva de volta à obra de Da Vinci é outra coisa. Procuramos no passado respostas para os anseios que a sociedade moderna tem. Na era da superciência, os homens tendem a procurar respostas mais simples. Afinal, deve existir alguma resposta lógica para tudo, não é? Deve haver algo que nos conecte a todos. Uma rede que faça sentido, uma “matrix”, um código que explique quem somos e por que estamos aqui. Vivemos numa época propícia para teorias que desconstroem a realidade como a conhecemos, oferecendo uma versão convincente – e mais fascinante – da vida, da nossa história, do nosso passado.
Por fim, há um fator que faz de Da Vinci um forte candidato às conspirações. Ele é famoso. E esse fato se virou contra Leonardo. “Parte do mistério que se imputa à obra, à vida e a tudo que se relacione com Da Vinci é motivado pelo simples fato de ele ser famoso”, diz George. Ou seja, ele é famoso porque se fala dele. E fala-se dele porque ele é famoso. O que adiantaria se Travis Di Montemore tivesse escondido segredos em suas obras?
“Da Vinci entrou para a história como um dos homens mais brilhantes que pisaram esta Terra e também como um dos mais misteriosos”, diz o historiador inglês Kenneth Clark, professor de História da Arte em Oxford e ex-curador do Museu Britânico. “E, por mais que se escreva sobre ele, apesar das muitas interpretações a que sua vida e obra deem margem, ainda haverá espaço e material suficientes para se formularem muitas outras teorias sobre ele.”
Em tempo, Travis Di Montemore foi um pintor italiano – de pais franceses – que obteve sucesso e fama no século 16. Seus dotes artísticos eram disputados por reis, sua atenção pelas rainhas. Caiu no esquecimento no século 18 e nunca, nunca mais alguém ouviu falar dele. Não, nem Dan Brown.

Saiba Mais
Leonardo Da Vinci, Martin Kemp, Jorge Zahar Editor, 2005
Da Vinci – 101 Segredos do Maior Gênio da Humanidade, Cynthia Phillips e Shana Priwer, Alegro, 2005
Leonardo Da Vinci, Kenneth Clark, Penguin, 1993
fonte: http://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/personagem/os-reais-misterios-de-leonardo-da-vinci.phtml#.WWOo6YTyvIU